| CRíTiCaS |
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O
maior cinema de todo o mundo chamava-se Roxy. Estava situado em Nova Iorque,
tinha 6214 lugares e 300 empregados e fechou em 1960, vítima do
advento da televisão. O velho e enorme cinema de Taipé,
onde Tsai Ming-Liang ambientou o seu novo filme, GOODBYE, DRAGON INN,
tem também alguns milhares de lugares, embora estejam quase todos
vazios durante as sessões, e já só existem dois empregados.
Uma bilheteira e arrumadora coxa e um jovem projeccionista.
O cinema está igualmente à beira de fechar, e o último filme em cartaz é um clássico de artes marciais de Hong Kong, realizado por King Hu, Dragon In (Hu é um grande favorito de Ming-Liang). A gigantesca sala escura, os longos corredores mal iluminados, as casas-de-banho desertas, os recantos cheios de caixas de pó, são percorridos apenas por um punhado de homossexuais em busca de companhia, ou por um ou outro espectador solitário. E por alguns fantasmas, que no escuro podem ser confundidos por homossexuais ou espectadores, e que podem bem ter saído da tela. GOODBYE DRAGON INN é o anti-Cinema Paraíso. Onde o filme de Giuseppe Tornatore é hemofílico de cinefilia sentimentalona, o de Tsai Ming-Liang vai pingando uma tristeza difusa e sem ilusões, acentuada pelos rigorosos e prolongados planos-sequência característicos do realizador, que tira o máximo efeito visual - e emocional - dos enormes espaços vazios, ensombrados e decadentes do cinema. A sala velha vai fechar, não haverá mais filmes, os fantasmas vão desvanecer-se, a bilheteira e o projeccionista ficarão desempregados e todos os que mantiverem o cinema aberto. A certa altura, um dos espectros, um homem de idade, começa subitamente a chorar durante uma das cenas de acção do filme de King-Hu. O actor está a ver-se a si mesmo na tela, porque faz parte do elenco de Dragon In, o primeiro filme da sua carreira. Ming-Liang foi buscá-lo de propósito, para lhe prestar homenagem. Tsai Ming-Liang diz que é impossível reviver a felicidade que sentimos nos grandes cinemas da nossa juventude, sozinhos ou acompanhados pelos nossos realizadores favoritos. Podemos só evocar melancolicamente essa felicidade perdida e lamentar que o presente já não seja assim. Eurico de Barros, Diário de Notícias
GOODBYE
DRAGON INN podia chamar-se também "A Última Sessão",
para citar o título do filme de Peter Bogdanovich que assinalava
o fim de um tempo, o do cinema clássico americano. Um
filme que confirma Tsai Ming-liang como um dos realizadores asiáticos
mais apaixonantes dos últimos anos. Um
filme nostálgico de uma grande beleza plástica. É
solene como uma cerimónia de despedida. No último plano
magistral, acompanhado por uma canção melancólica,
Tsai Ming-Liang mostra mais uma vez num instante frágil e poético
que o cinema pode preencher a solidão irremediável da
existência humana. Um
filme soberbo com uma tristeza visceral e uma beleza devastadora. Uma
ode cheia de esplendor à sétima arte. Este
filme é um adeus de uma execução orgulhosa. Violentamente
poético, está inundado por essa via electrizante própria
das obras-primas. O
realizador confirma que é um dos mais dotados da nova geração
de Taiwan. Tudo
o que dá valor ao cinema, tudo o que projectamos no ecrã
do desejo, de recordações e esquecimento realizado de
forma esplêndida e depurada, e também com humor. Um
dos cineastas mais dotados de hoje em dia. Uma homenagem nostálgica
ao cinema. Um
belo filme sobre a procura do amor e do reconhecimento através
das cores do cinema. Situado
algures entre um Beckett asiático e um Antonioni frio, um filme
que toca pela força sugestiva da sua realização.
Filme
hipnótico, fantasmático, quase mudo, triste e melancólico.
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