TRILÓGICO
O sucesso de 'Para Rir !', comédia elegante, teórica,
que desconstruía o mecanismo do boulevard, não
deixava mesmo assim adivinhar que a próxima obra
seria tão ampla, importante e ambiciosa. Em três
filmes que formam um único projecto, impressionante
no seu rigor e na sua coerência, o cineasta impõe
uma visão do mundo como um tecido rasgado, em que
os indivíduos, radicalmente sozinhos e cegos, abandonados
por Deus e por qualquer crença, só lutam para
a sua sobrevivência. Esta soma assume os contornos
de uma comédia, um policial e um melodrama. Iluminados
por um género ou por outro, as mesmas personagens
apresentam um multiplicidade de nuances. Lucas Belvaux conta-nos
como nasceu este projecto atípico, conduzido pela
mão de mestre da sua realização.
As
estreias em sequência de UM CASAL ENCANTADOR, EM FUGA
e DEPOIS DA VIDA correspondem a uma ordem de visão
ideal da sua trilogia?
Inicialmente, pensei situar a comédia -UM CASAL ENCANTADOR
- entre os dois filmes negros. O primeiro deveria estrear
a 1 de Janeiro, mas depois pensei que seria mau começar
o ano com EM FUGA. Como a personagem principal desaparecia
no fim, tive receio que os espectadores pensassem que a
trilogia ficasse encerrada. Por isso decidimos começar
com UM CASAL ENCANTADOR. O que confirmou a ordem inicial,
a da escrita do argumento.
Escreveu-os
um de cada vez?
Não, escrevi os três ao mesmo tempo em paralelo,
à medida do meu desejo e do humor do dia. Mas, desde
o início, que tinha em mente uma ordem de leitura
e de visão. Quando encontrava dificuldades num, continuava
com o outro.
O
que é que o levou a este projecto...
Um desejo teórico!
Não
o desejo de contar determinada história?
Queria experimentar uma ideia e concretizá-la. Mostrar,
de um filme a outro, que um papel secundário é
um protagonista vindo de outro filme. Andava com esta ideia
em mente desde o meu primeiro filme, "Parfois trop
d'Amour", em que tive um enorme prazer a trabalhar
com os actores que interpretavam papéis secundários.
Foram eles que me fizeram pensar nisso. Pensei que podia
ter feito dois outros filmes com eles e mostrar as mesmas
24 horas segundo a perspectiva deles. O que teria invertido
o ponto de vista das personagens.
Há
três filmes, mas mesmo assim continuam a existir personagens
secundárias...
Sim, a vaidade do projecto é que nunca se termina,
mas a partir do momento em que os dados estão lançados
dá-se uma outra atenção a todos os
actores, em vez da clivagem que existe entre principal-secundário.
O
facto de existirem três filmes aumenta estranhamente
a curiosidade e o sentimento de perda sobre as personagens
como os filhos de Cécile ou o amigo médico
que nunca se tornam centrais...
Isso mostra que resulta! Sejam quais forem os filmes, gostaria
que provocassem esse desejo de olhar para as personagens
secundárias. Na minha opinião, eles só
passam a existir se quisermos saber mais coisas sobre elas.
Como na vida nos cruzamos com pessoas que gostaríamos
de conhecer.
Acha
que daqui a dez anos poderá estar a fazer um filme
em que uma personagem desta trilogia volte a aparecer como
em Truffaut ou Demy?
Talvez, entre os que ficaram vivos... Acho que ainda não
acabei o que posso fazer com eles, mas francamente não
sei se eles vão reaparecer.
Porque
não reduzir este projecto de tornar um secundário
protagonista a um só filme, como fizeram Stroheim
ou Renoir?
Porque se as personagens secundárias fossem as principais
no mesmo filme já não haveria personagens
secundárias. O meu papel é de protagonista
em EM FUGA, mas nos outros dois é um pequeno papel.
Não é uma personagem que se transforma. A
dado momento pensei em fazer um só filme coral, muito
longo, cuja duração fosse a soma dos três,
mas essa ideia não me agradava. Agora, gostaria de
montar os três num só. Mas também gosto
de ter três filmes porque assim pude realizar três
géneros diferentes.
Uma vez espreitei no computador o que daria a somo dos três
filmes e isso aniquilava os géneros. Tornava-se num
filme mais negro e melancólico. Mas os géneros
deixavam-se contaminar mutuamente, a comédia pelo
drama, o melodrama pelo policial.
Marie-Anne Guerin, Erwan Higuinen e Jean-Marc Lalanne, Cahiers
du Cinéma, Jan 2002