Trilogia Lucas Belvaux

ENTREVISTA LUCAS BELVAUX

TRILÓGICO

O sucesso de 'Para Rir !', comédia elegante, teórica, que desconstruía o mecanismo do boulevard, não deixava mesmo assim adivinhar que a próxima obra seria tão ampla, importante e ambiciosa. Em três filmes que formam um único projecto, impressionante no seu rigor e na sua coerência, o cineasta impõe uma visão do mundo como um tecido rasgado, em que os indivíduos, radicalmente sozinhos e cegos, abandonados por Deus e por qualquer crença, só lutam para a sua sobrevivência. Esta soma assume os contornos de uma comédia, um policial e um melodrama. Iluminados por um género ou por outro, as mesmas personagens apresentam um multiplicidade de nuances. Lucas Belvaux conta-nos como nasceu este projecto atípico, conduzido pela mão de mestre da sua realização.

As estreias em sequência de UM CASAL ENCANTADOR, EM FUGA e DEPOIS DA VIDA correspondem a uma ordem de visão ideal da sua trilogia?
Inicialmente, pensei situar a comédia -UM CASAL ENCANTADOR - entre os dois filmes negros. O primeiro deveria estrear a 1 de Janeiro, mas depois pensei que seria mau começar o ano com EM FUGA. Como a personagem principal desaparecia no fim, tive receio que os espectadores pensassem que a trilogia ficasse encerrada. Por isso decidimos começar com UM CASAL ENCANTADOR. O que confirmou a ordem inicial, a da escrita do argumento.

Escreveu-os um de cada vez?
Não, escrevi os três ao mesmo tempo em paralelo, à medida do meu desejo e do humor do dia. Mas, desde o início, que tinha em mente uma ordem de leitura e de visão. Quando encontrava dificuldades num, continuava com o outro.

O que é que o levou a este projecto...
Um desejo teórico!

Não o desejo de contar determinada história?
Queria experimentar uma ideia e concretizá-la. Mostrar, de um filme a outro, que um papel secundário é um protagonista vindo de outro filme. Andava com esta ideia em mente desde o meu primeiro filme, "Parfois trop d'Amour", em que tive um enorme prazer a trabalhar com os actores que interpretavam papéis secundários. Foram eles que me fizeram pensar nisso. Pensei que podia ter feito dois outros filmes com eles e mostrar as mesmas 24 horas segundo a perspectiva deles. O que teria invertido o ponto de vista das personagens.

Há três filmes, mas mesmo assim continuam a existir personagens secundárias...
Sim, a vaidade do projecto é que nunca se termina, mas a partir do momento em que os dados estão lançados dá-se uma outra atenção a todos os actores, em vez da clivagem que existe entre principal-secundário.

O facto de existirem três filmes aumenta estranhamente a curiosidade e o sentimento de perda sobre as personagens como os filhos de Cécile ou o amigo médico que nunca se tornam centrais...
Isso mostra que resulta! Sejam quais forem os filmes, gostaria que provocassem esse desejo de olhar para as personagens secundárias. Na minha opinião, eles só passam a existir se quisermos saber mais coisas sobre elas. Como na vida nos cruzamos com pessoas que gostaríamos de conhecer.

Acha que daqui a dez anos poderá estar a fazer um filme em que uma personagem desta trilogia volte a aparecer como em Truffaut ou Demy?
Talvez, entre os que ficaram vivos... Acho que ainda não acabei o que posso fazer com eles, mas francamente não sei se eles vão reaparecer.

Porque não reduzir este projecto de tornar um secundário protagonista a um só filme, como fizeram Stroheim ou Renoir?
Porque se as personagens secundárias fossem as principais no mesmo filme já não haveria personagens secundárias. O meu papel é de protagonista em EM FUGA, mas nos outros dois é um pequeno papel. Não é uma personagem que se transforma. A dado momento pensei em fazer um só filme coral, muito longo, cuja duração fosse a soma dos três, mas essa ideia não me agradava. Agora, gostaria de montar os três num só. Mas também gosto de ter três filmes porque assim pude realizar três géneros diferentes.
Uma vez espreitei no computador o que daria a somo dos três filmes e isso aniquilava os géneros. Tornava-se num filme mais negro e melancólico. Mas os géneros deixavam-se contaminar mutuamente, a comédia pelo drama, o melodrama pelo policial.


Marie-Anne Guerin, Erwan Higuinen e Jean-Marc Lalanne, Cahiers du Cinéma, Jan 2002