Trilogia Lucas Belvaux

CRÍTICAS

Uma comédia, um policial, um melodrama. Cada um dos três novos filmes de Lucas Belvaux traz consigo um rótulo que pode eventualmente desolar-se ou apagar-se, virar-se ou ficar momentaneamente coberto por outro (aqui não há lugar para ortodoxias), mas é a soma dos três que forma um objecto cinematográfico não identificado, a inédita entidade um casal encantador em fuga depois da vida. Se existir uma trilogia não é no sentido mais corrente do termo: os três filmes não se sucedem mas sobrepõem-se, relatando o que se passa na mesma cidade (Grenoble), ao mesmo tempo, às mesmas personagens, mas através de constantes mudanças de ponto-de-vista.
Tudo acontece como se três equipas de filmagem - apesar do estilo de cada filme ser sensivelmente distinto - estivessem decididas a filmar o mesmo dia mas com outras prioridades, cruzando-se por momentos para se separarem logo que uma decide não desistir de um personagem.
Para Lucas Belvaux, a realização desta trilogia foi uma experiência sem precedentes, a mesma que se apresenta hoje ao espectador.
A questão já não é a da incomunicabilidade, mas a da coexistência de indivíduos com modos de funcionamento radicalmente diferentes. Em vez de condenados à separação, Belvaux oferece um escape de outra ordem, a outro nível: o do tempo.

Erwan Higuinen, Cahiers du Cinéma, Janeiro de 2003

O todo é um conjunto tranquilamente extraordinário, um folhetim sentimental, um fresco político-social, um tratado de paixões, um jogo experimental, um retrato de cidade, uma paisagem do cinema francês, em suma, um objecto ambicioso que sugere múltiplos prazeres, leituras e interpretações.
A trilogia joga com um conceito velho como o próprio cinema, mas raramente posto em prática: os filmes são como comboios, pode-se sempre sair de um para apanhar outro. Todos os personagens secundários, todos os figurantes de um filme são potenciais portadores de outra uma história, de outra uma ficção.
Constata-se que a mesma linha de diálogo dita da mesma forma, pode ser hilariante em UM CASAL ENCANTADOR e anedótico em DEPOIS DA VIDA, ilustração simples do teorema de Koulechov via Godard: uma imagem + outra imagem = uma terceira imagem.
Uma lição de cinema sem didactismo por nunca se sobrepor nem a história nem aos personagens.

Serge Kaganski, Les Inrockuptibles


Imaginar o que está para além da câmara, fazer o seu próprio filme, reconstruir as trajectórias de quem passa e transporta consigo algo de romanesco: é o desejo íntimo de qualquer espectador. Pois bem... Belvaux assumiu o desafio de realizar esse sonho.
Mas não será isso limitar a livre fantasia de cada um de nós, no cinema? No fim da trilogia vemos bem que não. Mesmo que cada uma das histórias ilumine (quase) todos os recantos das outras, cada história preserva os seus segredos e, claro está, o seu "antes" e o seu "depois" desconhecidos.
A trilogia recorda-nos que há tantas verdades quantos os olhares e as lógicas individuais. É fascinante encontrar em EM FUGA ou DEPOIS DA VIDA explicações novas para diálogos, gestos ou atitudes que pensávamos ter decifrado em UM CASAL ENCANTADOR. Para não falar da magia do reencontro com as personagens de um filme para o outro: há quanto tempo não sentíamos o efeito de novela no cinema?
As três partes completam-se de forma hábil: nenhuma vida se resume a uma grande brincadeira nem a um suspense de cortar a respiração. As personagens pertencem todas à mesma faixa etária (quarenta e poucos anos) e confrontam-se com o eclipse das suas ilusões políticas, amorosas, existenciais. O conjunto evoca, enfim, uma espécie de tratado de sobrevivência para a meia-idade. Mas os resultados e a moral são sempre diferentes, inesperados, convidando à reflexão.

Louis Guichard, Télérama, 4 de Janeiro de 2003

Inspirado num princípio de decomposição narrativa que alimentou obras literárias e cinematográficas, esta trilogia, constituída por elementos de grande valor, tem a particularidade de não dispensar a sua força na soma dos seus elementos. É por isso que se torna imperativo não perder nenhum deles. Não tanto para admirar a proeza argumentativa do todo, mas sim para ter a oportunidade de ceder à vertigem suscitada pela sua espectacular difracção. Todo o interesse deste tríptico consiste, de facto, na disparidade que existe entre o seu fim e os seus meios.
Qualquer coisa da experiência cubista atravessou as fronteiras do cinema com esta obra, que parte, segundo a expressão de Apollinaire, de uma "réalité de la conception", mais do que de uma realidade da visão.
Por isso não é tanta a surpresa de descobrirmos, num filme, o contra-campo ou o que está fora do campo, ou descobrir a banda-sonora do anterior que conferem ao todo o seu valor, mas sim a forma como a mudança de perspectiva faz tremer as certezas do espectador sobre a natureza da realidade do que lhe é dado a ver.

Jacques Mandelbaum, Le Monde, 1 de Janeiro de 2003


Belvaux conseguiu: o seu projecto não tem equivalente nenhum no mundo, o cineasta Belvaux está mais do que à altura da sua ambição, o director de actores Belvaux é a primeira grande revelação do ano, e o conjunto de Belvaux vale mais do que um triplo. É Natal e Belvaux rima com prenda [cadeau].

Philippe Azoury, Libération, 1 de Janeiro de 2003