ENTREVISTA CATHERINE BREILLAT

 

O filme parte da sexualidade para explorar a relação entre homens e mulheres. Como é que esperava ou imaginava que ele iria ser encarado pelos espectadores masculinos e femininos?

Pelo que li sobre o filme e pela experiência de ir assistir a projecções, e de falar com os espectadores, a maioria das mulheres estavam muito contentes com o filme porque achavam que era a primeira vez que um filme falava sobre algo que elas queriam ver discutido. Os homens achavam que era muito interessante como instrumento para explorar algo sobre o qual não sabiam muito ou de que precisavam de saber mais.

 

Como é que se relacionou com a personagem de Marie, e qual foi a sua relação com a filosofia sexual que ela vai desenvolvendo e que narra ao longo do filme? Há alguma distância irónica?

Eu não tenho qualquer distância em relação ao filme. Quando comecei a filmar ROMANCE, pensei que iria filmar o que não é dito, e quando terminou foi para mim uma revelação – vê-lo e perceber o seu significado uma vez terminado. Não tinha distância. Fi-lo à medida que o fazia; o filme aconteceu à medida que o filmava.

 

Então os seus dois diferentes papéis – como argumentista e realizadora – juntaram-se no processo de fazer o filme?

Havia uma total dissociação entre a argumentista e a realizadora. Escrevi o argumento dia a dia, e como argumentista o meu primeiro interesse era a história sentimental, romântica, e depois a exploração sexual. Numa base do dia a dia era como descer aos infernos, percebendo até onde podia ir. Como foi sendo feito nessa base de dia a dia, podia refrear a auto-censura que vem das ideias pre-concebidas. Por isso quando a realizadora em mim fez o filme, ela deu a volta completamente ao sentido e ao significado do que estava escrito no argumento.  Como argumentista a boa qualidade era a história sentimental, e o que era negativo era a exploração sexual. Como realizadora, o que se tornou evidente quando vi o filme foi que a relação entre Marie e Paul – essa paixão – é na realidade degradação, e a exploração do sexo é de facto uma revelação, uma transcendência.

 

Queria fazer-lhe uma pergunta sobre a sexualidade explícita do filme. Interessou-me o facto de que de muitas maneiras é o corpo masculino que é mais explicitamente exposto no filme.

Não creio que o corpo masculino seja exposto no filme. O actor que ia interpretar o papel de Paul (Sagamore Stévenin) não sabia que ia fazer esse papel, porque para começar ele ia fazer de Paolo – o outro papel – e depois contratei um actor do cinema porno para fazer o personagem de Paolo; no final (Stévenin) acabou por fazer Paul, por isso não percebeu que ia ser um pouco exposto. Obviamente que uma realizadora vê mais dos homens que os próprios homens. Os realizadores (homens) são tímidos e bastante mais prudentes em relação a isto.

 

Está interessada nos corpos masculinos porque é uma realizadora?

Os homens nus no écran são muito interessantes e não vejo porque é que deviam ser sempre as mulheres a estar ali em cima para os homens as verem.

 

Mas podia causar problemas de censura. Teve alguns nos países onde o filme já estreou, França, Bélgica e Itália?

Para surpresa minha até agora não houve problemas de censura. A questão da censura foi mais criada pelos distribuidores, que pensavam como é que iriam estrear o filme, e pelos jornalistas, que me faziam constantemente perguntas sobre censura. Os espectadores, nesses três países, nem sequer se importaram – não era para eles sequer uma questão. A censura era um risco, mas não foi criado por eles.

 

Alguma vez autorizaria que o seu filme fosse cortado?

Em França aquilo que poderia ter criado um problema é a cena da fantasia no bordel. Se a tivessem querido censurar eu teria querido manter o som sobre um écran negro, e no exterior do cinema, à medida que as pessoas saíssem, dar-lhes um VHS daquilo que tinha sido cortado. Se há censura, as pessoas devem saber que ela existe e porquê. A censura devia ser vista como uma cicatriz, e é por isso que eu quereria que o som continuasse sobre um écran a negro. Se o filme é suposto ser obsceno então a cena tem que ser identificada e (a sua obscenidade) explicada.

 

Isso está ligado com a forma como a pornografia tem sido classificada neste país. Então como é que define a relação entre este filme e a pornografia?

A pornografia não existe. O que existe é a censura que define a pornografia e a separa do resto do cinema. A menos que as pessoas achem que, como raça, nós somos pornográficos – caso em que precisaríamos de uma operação! A pornografia é o acto sexual tirado completamente do seu contexto, e feito um produto de consumo, usando os mais baixos sentimentos ou emoções das pessoas, quando na realidade na vida diária o acto sexual está rodeado de emoções, respeito pelo parceiro, prazer, etc, o que não existe na pornografia. Portanto a pornografia enquanto indústria é uma prostituição das mais normais e válidas emoções e actos humanos, que as pessoas experimentam na sua vida do dia a dia. O cinema pornográfico não existe – não há cinema nos filmes pornográficos. Não há actores, porque eles não veiculam nenhuma emoção, nenhum personagem. São apenas carne. Rocco Siffredi, o actor porno que interpreta o papel de Paolo, diz exactamente isso.

 

Então o que é que distingue este filme da pornografia?

Em ROMANCE as imagens retratam uma ideia e as personagens experimentam emoções. O espectador intui a emoção através das imagens que está a ver. Essa é a diferença entre o filme e a pornografia.

O filme transgride explicitamente a fronteira entre sexo representado e sexo real. Como é que lidou com isso no plateau – do ponto de vista dos actores e da equipa técnica?

Há muita hipocrisia em pôr um valor moral na pergunta “Eles estão realmente a fazê-lo ou não?” Se olharmos para o que a maioria dos actores mais conhecidos estão a fazer hoje em dia, cada vez mais as cenas de amor são muito íntimas e directas, por isso é hipócrita perguntar: “Eles penetram ou não?” Os actores não simulam: não simulam emoções, por isso ao mesmo tempo eles não podem simular prazer – têm que representá-lo. Por isso como não vão ser capazes de simular prazer, vão ter que representar prazer. Isto dito é realmente apenas um detalhe físico. A dificuldade não está na performance do actor quando está no plateau; a dificuldade vem depois. Eles vão ser vistos a interpretar o acto no écran pela sociedade, pela sua família mais próxima; pelas pessoas com quem se relacionam – essa foi a verdadeira dificuldade.

 

Então os actores acharam isso difícil? Ficaram contentes por se terem envolvido nisso?

O único problema que tive foi entre Rocco Siffredi e Caroline Ducey, porque eles vinham de dois mundos completamente opostos. Para Caroline foi quase como um ritual sacrificial e ela estava exaltada de cada vez que passava de uma experiência para a outra; ela empenhava-se mais de cada vez, e ficava contente por conseguir essa experiência emocional, por isso não houve problemas. Antes expliquei bem a Caroline que não devia haver censura, não devia haver nenhum ponto onde devêssemos parar, porque a censura define a obscenidade, e eu não queria fazer nada obsceno. Foi mais uma experiência de auto-descoberta, e para a Caroline ir até onde quis, foi uma experiência compensadora.

  Linda Ruth Williams, Sight And Sound, 10.99

 

 

Ao filmar com Rocco Siffredi, uma estrela do porno, você transgride as barreiras entre o cinema X e o cinema de autor, o que é um exercício perigoso...

Escondi a toda a equipa que tinha escolhido Rocco até à véspera da sua chegada, porque as pessoas têm preconceitos e se o tivessem sabido antes de começar o filme, teriam pensado que eu ia realmente fazer um filme porno e ninguém se teria comprometido num tal projecto, incluindo os meus técnicos. A única que é absolutamente deliciosa é a minha montadora. E no entanto ela é muito católica, mas num certo sentido eu sou muito puritana, e portanto entendemo-nos muito bem. Rocco para ela é um anjo. E é verdade que poucos homens têm a sua ternura e o respeito que ele tem quando se trata de ter relações com uma mulher. Mas durante a rodagem da cena entre ele e Caroline, o engenheiro de som vinha ter comigo para me explicar aos gritos que aquilo não era cinema. É preciso ultrapassar os tabus, mas as pessoas nem sequer nos deixam fazer as coisas, empurram-nos para o tabu, no sítio em que param, onde é feio, não nos deixam passar para onde é belo. Eu própria o sinto, esse peso do tabu, e conseguir ultrapassá-lo também foi duro para mim. Rodámos ROMANCE Sabendo que era o filme de todos os perigos.

 

Ás vezes é também questão de pornografia o que Marie diz em voz off: o filme mantém uma relação estreita e profunda com a pornografia, mas nunca é pornográfico.

Porque Caroline não tem de todo um corpo pornográfico, mas um corpo muito compacto, quase uma abstracção de corpo. Ela é tão pouco obscena e tem tanta alma que isso apaga a pornografia. Ela tem uma graciosidade incrível. Na cena com Rocco, ela enrola-se e desenrola-se na cama durante oito minutos e não há um só falso movimento, tudo é gracioso. O que me toca nessa cena com Rocco, é também que no final é ele que morre, tem-se a sensação que ele está a morrer de tal forma ele se abandona. É de longe ele o mais fraco. Quando um homem é extremamente viril, como o é Rocco, ele pode permitir-se ser o mais fraco, o que é a realidade do acto físico entre um homem e uma mulher. O gozo da mulher transporta-a para um além muito sobrenatural, ela escapa completamente ao homem. Enquanto que o homem que goza está a deixar de ser um homem no sentido em que ele se representa a si mesmo enquanto homem, quer dizer como um sexo em erecção. E isso, vê-se no rosto de Rocco. Para dar isso a um realizador, é necessária muita coragem. Rocco aceitou esta morte, que não estava prevista no argumento, mesmo se eu fiz afixar por todo o lado no plateau uma frase de Oshima que diz que todo o realizador tem um dia desejo de filmar um homem e uma mulher a morrer, porque tem vontade de filmar esses dois seres tendo o prazer, a que finalmente chamamos a pequena morte.

Dossier de Imprensa Original

 


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