CRÍTICAS
ROMANCE
é um filme para que ninguém estava preparado. Retoma as convenções do filme
pornográfico, o genérico é projectado com um grande “X”, como um desafio
aos espectadores. Trata-se de um comentário sobre as noções convencionais do
envolvimento sexual e emocional, que parte de uma situação na qual as declarações
do coração não significam nada se não forem sustentadas pelo corpo – uma
situação inquietante para os espectadores masculinos que faz de ROMANCE o
primeiro filme da era Viagra.
Cinematograficamente,
a narrativa cada vez mais onírica, relembra Buñuel e Oshima, com ecos literários
de escritos eróticos franceses de Sade a Bataille e a Pauline Réage.
É
um filme perturbante, não só por confrontar as convenções e as práticas do
porno com as do cinema enquanto arte. ROMANCE coloca uma série de questões éticas
sérias sobre os limites daquilo que um realizador pode exigir de um actor.
Jonathan
Rommey, The Guardian
A esteticização que Breillat faz do sexo é devedora da quietude do cinema japonês. A sua encenação é realista sem cerimónia, por um lado, mas distanciada do naturalismo. A ancoragem social de ROMANCE é mínima: Paul é um modelo, Marie é uma professora, mas a sua identidade social é tão reduzida como o seu apartamento branco.
Inevitavelmente, uma vez que Breillat é uma mulher, ROMANCE coloca a questão de se este “outro ponto de vista” está relacionado com o sexo e se ROMANCE pode ser visto como uma exploração feminina ou feminista do desejo. Como muitas realizadoras francesas, Breillat nega o conceito de “cinema das mulheres”, que procura ser identificado com uma visão geral do autor.
A forma directa como pega na sexualidade, sem se perturbar pela moralidade convencional e pelo politicamente correcto, é original e emocionalmente poderosa. ROMANCE é simultaneamente fascinante e perturbador.
Ginette Vincendeau, Sight and Sound, Novembro de 1999
Ao
mesmo tempo tratado filosófico, diário íntimo, grande grito de raiva e de
amor, melopeia recorrente, exploração dos limites, ROMANCE, o novo filme de
Catherine Breillat, até ver o seu mais poderoso e mais conseguido, é um
objecto completamente à parte e de que é difícil dar conta a uma só visão.
Composto de blocos compactos que se encadeiam e entrechocam ROMANCE é
desconfortável, romanesco, inquisidor, animado de uma surda violência,
transportado por um olhar clínico que deixa poucas possibilidades de identificação
ao espectador, emudecido perante uma obstinação incrível no limite da obsessão.
Nunca Catherine Breillat tinha ido tão longe na realidade de uma forma
organicamente ligada ao sue objectivo, precipitando-se numa espécie de
continuum mental que roça a abstração, afastando lucidamente todas as formas
de naturalismo, em favor de golpes de sonda tranquilamente convulsivos que
mergulham num abismo sem fundo, num buraco negro cavernoso de que não se
regressa facilmente. Para Breillat, a sexualidade, objecto único do seu cinema,
é antes do mais uma questão de cérebro. O sexo, inventa-se, fala-se,
repisa-se eternamente, pensa-se, maquina-se, fabrica-se... E é deste carburante
cerebral que se alimenta ROMANCE, habitado por uma obcecada voz interior que não
é um suplemento de alma à mecânica dos corpos mas o lugar de onde ela vem, de
onde nasce. Se quisessemos empregar uma linguagem fora de moda, diríamos que
ROMANCE é um filme sobre a alma, a das mulheres, uma substância que se lhes
negou durante séculos. (...)
Desta
viagem ao interior de um cérebro e de um sexo nasce menos um sentimento de
mal-estar – mesmo se o filme não deverá deixar de suscitar alguns
mal-entendidos de tal forma escapa a todos os discursos convencionais,
feministas, transgressores ou pornográficos – do que uma afirmação selvagem
e radical como raramente se vê no cinema francês.
Thierry
Jousse, Cahiers du Cinéma, Abril de 1999
Será,
segundo a Variety, um dos maiores sucessos de venda de um filme francês.
Chama-se "Romance", foi realizado por Catherine Breillat, e a razão
de todo o bulício é, segundo a redutora (mas provavelmente realista) explicação
da mesma revista, o facto de "ser o primeiro filme 'mainstream' a filmar um
pénis em erecção". "Romance", já estreado em França no ano
passado, foi vendido para mais de 51 países em todo o mundo, incluindo a Eslovénia
e a Estónia, toda a América Latina, até a Costa Rica - e até Portugal, onde
estreará comercialmente este ano, depois de, em 1999, ter tido uma exibição
no âmbito de um ciclo -, atingindo valores de vendas superiores a um milhão de
dólares. De forma cerebral, com alguns momentos surrealistas,
"Romance" filma o périplo sexual de uma mulher, que, de corpo em
corpo - primeiro o marido, que se recusa a ter relações sexuais com ela;
depois um estranho (interpretado por Rocco Sifreddi, um actor porno) e,
finalmente, um iniciado aos prazeres S&M - procura uma espécie de redenção
espiritual.
Público,
17.03.00
Escandaloso
e pornográfico para uns, sublime e genial para outros, ROMANCE, o novo filme de
Catherine Breillat, dividiu a crítica e é o filme francês mais polémico da
temporada. Ousado e, a um tempo, carnal e teórico, será certamente, neste fim
de milénio, uma referência do género para muitos espectadores como foi, no
seu tempo, EMMANUELLE. Embora Romance seja claramente muito mais ambicioso e
elaborado, estando por isso mais próximo de IMPÉRIO DOS SENTIDOS, o filme de
culto do japonês Nagisa Oshima.
Partindo
do banal «cliché» sobre a diminuição (ou a ausência) do desejo sexual nos
casais instalados, a história de Marie (interpretada por Caroline Ducey, uma
actriz voluntariamente sem formas, «sem corpo», mas espantosamente vibrante)
arranca rapidamente para o exagero, transgride as regras do erotismo e do
discurso feminino sobre o sexo e decorre no perigoso limite da obscenidade
pornográfica.
ROMANCE
é, sem dúvida, um filme provocador até pela escolha dos actores - um dos
protagonistas é Rocco Siffredi, um dos mais célebres exemplares masculinos de
filmes X, cujo sexo de 26 cm é filmado com deleite, sob todos os ângulos, pela
câmara de Breillat. As cenas de sexo são cruas, sem amor, e as reflexões
sobre o assunto também... É incrível e estonteante, por exemplo, o discurso
de Marie sobre a relação entre o prazer feminino e o tamanho do pénis! «Um pénis
não se quer só comprido e grande, também deve ser grosso», diz em resumo
Marie, pouco antes de uma tórrida cena de amor com Rocco.
Privada
de amor físico pelo companheiro, Marie, jovem professora primária disléxica
(não consegue escrever uma linha sem grosseiros erros gramaticais), parte para
uma procura delirante de parceiros. Só o sexo conta e interessa, apesar do
discurso distanciado e elaborado do obsceno argumento.
Neste filme, que é sem dúvida o mais brutal de
Breillat (autora entre outros de SALE COMME UN ANGE, interpretado pela
luso-francesa, Lio), é sobretudo abordado o «manque» essencial que marca
frequentemente a relação entre um homem e uma mulher, entre o amor e o desejo.
A procura de Marie leva-a inclusivamente a experimentar os rituais
sado-masoquistas, filmados longamente e com um prazer evidente por Breillat.
Caroline
Ducey, que, curiosamente, mudou de nome para este filme (antes chamava-se
Caroline Trousselard), correu alguns riscos, devido às cenas «hard» que
aceitou fazer, mas, segundo grande parte da crítica, acaba por sair da prova
como uma actriz de valor acrescentado. «Desde Sandrine Bonnaire, com Pialat,
que não se via tal eclosão no cinema francês!», escreveu um crítico.
Ela
assume o seu papel, simplesmente: «Sei que corri riscos, cheguei a recusar
fazer algumas cenas como a de sexo oral com Segamore, que é o meu companheiro
no filme, mas depois Catherine Breillat explicou-me que era importante, e eu
fiz; a cena com Rocco também foi difícil porque eu começava a dizer o texto e
via-o com os olhos vazios e mortos, apenas preocupado com a sua erecção.»
«Com
este filme fui até ao máximo dos meus limites, toquei nos meus limites e não
desejo voltar a fazer este género de experiência... agora tenho vontade de
fazer coisas mais simples e mais ligeiras», acrescentou.
A
polémica sobre ROMANCE foi no entanto apimentada na imprensa com outros
ingredientes. Rocco, o actor «porno» que conta com mais de 4000 parceiras em
filmes X, disse numa entrevista que concretizou o acto sexual com ela numa das
cenas mais ousadas do filme, e Catherine desmentiu... «Ele queria, mas eu não
aceitei». Rocco é um personagem que se distingue pelas suas frases filosóficas
do género: «Quando gosto da mulher com quem faço sexo, o meu pénis ainda
cresce dois ou três centímetros», aos já falados 26...
Quanto
à cineasta, pretendeu realizar um filme metafórico e cru, duro mas igualmente
púdico, de certo modo venerando o sexo sem nunca cair, diga-se, na
libertinagem. Pretendeu atingir uma certa elevação espiritual. «Só estou bem
quando toco no limite, no medo», afirmou.
DANIEL
RIBEIRO, correspondente em Paris, Expresso
– Vidas, 08.05.99
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